Maria do Céu Fernandes rompeu barreiras ao ocupar espaço na política - Foto: João Gilberto
A curraisnovense Maria do Céu Fernandes, primeira deputada estadual do Brasil, foi homenageada no projeto Memória Potiguar, promovido pelo Memorial do Legislativo Potiguar.
A mesa-redonda “Maria do Céu Fernandes: além da primeira deputada” foi realizada nesta segunda-feira (31) com a participação da deputada estadual Cristiane Dantas, procuradora da Mulher da Assembleia Legislativa; da jurista Adriana Magalhães, autora do livro “As mulheres e os espaços de poder no Rio Grande do Norte”; e de Olindina Fernandes, filha da ex-deputada. A mediação foi conduzida pela jornalista Hilneth Correia.
Além do debate, também foi lançada a publicação ‘Maria do Céu Fernandes: além da primeira deputada’, escrita pelo jornalista Octávio Santiago, que reúne fatos biográficos, discursos e entrevistas da homenageada, apresentando um panorama completo sobre sua trajetória política e legado.
Pioneira na luta pela emancipação da mulher, Maria do Céu Pereira Fernandes nasceu em Currais Novos em 1910. Casada com Aristófanes Fernandes, foi eleita deputada em 1935 com 12.058 votos, ficando no mandato até 1937, quando é cassada com o golpe do Estado Novo. Deixou, então, a vida pública para se dedicar à família.
Uma das convidadas para o evento, a advogada Adriana Magalhães disse que quando esteve como juíza do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RN), começou a pesquisar sobre os espaços das mulheres e foi surpreendida com a constatação de que pouquíssimas mulheres passaram a ocupar espaços decisórios ao longo da história.
Debate fez parte do projeto “Memória Potiguar” | Foto: João Gilberto
“Comecei [a pesquisa] pelo Judiciário, depois fui para o Legislativo e fui pesquisar sobre os municípios na pandemia. Visitei 120 para pesquisar sobre vereadoras, prefeitas e vice-prefeitas. A história de Maria do Céu Fernandes é inspiradora e é importante que se reconheça o Memorial da Assembleia como uma excelente fonte, onde pudemos observar fotos icônicas de Maria do Céu Fernandes”, disse a advogada, referindo-se às imagens que hoje estão à disposição do público no Memorial do Legislativo Potiguar.
Além do resgate dos feitos da deputada, o perfil da mãe Maria do Céu Fernandes também foi relatado. Olindina Fernandes, filha da ex-deputada, relatou a dificuldade da relação que teve com a mãe durante boa parte da juventude, especialmente na adolescência.
“Vivi em uma casa cheia de gente, por serem pessoas políticas. Os quartos eram cheios, a casa inteira”, relembrou, relatando ainda o período em que foi interna do colégio Imaculada Conceição. Porém, um problema familiar aproximou mãe e filha.
Olindina Fernandes é filha da ex-deputada | Foto: João Gilberto
“Quando eu estive casada, ainda muito jovem, me divorciei e retornei para a casa dela. Começamos a nos dar bem e ficamos muito amigas. A relação mudou bastante”, falou.
Para a deputada Cristiane Dantas, Maria do Céu abriu caminho para que hoje a Assembleia do RN tenha a maior bancada feminina da história.
“Foi uma mulher que sempre valorizou a educação, muito estudiosa, que falava três línguas, e era um grande feito para as mulheres àquela época”, afirmou.
Quem foi
Segundo a publicação A Mulher Potiguar – Cinco Séculos de Presença, da Fundação José Augusto (FJA), Maria do Céu veio morar em Natal aos 14 anos para cursar o secundário no Colégio da Imaculada Conceição, educandário dirigido pelas Irmãs Dorotéias. Em 1928, concluiu o Curso Técnico do Comércio e voltou a residir em Currais Novos, onde fundou um colégio e deu aulas de francês no seu curso ginasial. Lá, criou o “Galvanópolis”, que teve o seu papel político ao se posicionar a favor do movimento pelo direito da mulher ao alistamento eleitoral. Apoiado pelo então senador Juvenal Lamartine, o movimento resultou numa lei que admitia, no Rio Grande do Norte, a inscrição de eleitores sem distinção de sexo. Como consequência, o estado teve as duas primeiras eleitoras do Brasil e a primeira prefeita eleita da América Latina.
Com a repressão que veio após a Revolução de 1930, Juvenal Lamartine é deposto da presidência da Província e vai para o exílio. Maria do Céu é convidada para se candidatar à Assembleia Constituinte Estadual pelo Partido Popular.
“Sua candidatura é apresentada como uma proposta de renovação nos quadros políticos e como símbolo das conquistas políticas da mulher norte-rio-grandense. Maria do Céu Fernandes enfrenta na campanha eleitoral um clima de extrema violência. Fiel a seus princípios, defendendo sem medo a causa feminina e as propostas do Partido Popular, Maria do Céu Fernandes é eleita em 1934. O seu partido elege onze deputados estaduais. Mas, sob o patrocínio da Interventoria Federal, começa a haver atos de ostensiva intimidação de parlamentares oposicionistas, sendo Maria do Céu vítima de tentativas de envenenamento. Ela propõe, então, que todos os seus partidários eleitos se retirem em grupo para Paraíba, o que de fato ocorreu. Os deputados só voltam na véspera da posse, sob a proteção do Exército”, diz a publicação da FJA.
Em 1937, com o Estado Novo, a Assembleia é fechada e Maria do Céu é cassada. Sai da vida pública e em 1960 passa a residir no Rio de Janeiro com o marido, o deputado federal Aristófanes Fernandes. Em 1965, ao ficar viúva, volta para o Rio Grande do Norte, para administrar os bens da família. Ela morreu em 9 de maio de 2001, aos 90 anos, no Rio de Janeiro.
*Com informações da Agência Saiba Mais