quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Manifestações culturais do RN

Apresentação cultural dos Negros do Rosário de Jardim do Seridó. 

A cultura popular do Rio Grande do Norte alimenta das mesmas fontes da cultura nordestina, cujas peculiaridades são determinadas principalmente pela presença da cultura do colonizador português, pelas culturas africanas trazidas pelos negros que chegavam como escravos para trabalhar principalmente nos engenhos de cana-de-açúcar, e pela cultura indígena dos Potiguaras que habitavam o litoral e dos Cariris que viviam no Sertão.

Essas seriam as Três principais vertentes da nossa herança cultural, sendo que, para alguns estudiosos do nosso folclore e da nossa arte popular, as raízes mais fortes são de origem portuguesa e podem ser percebidas através da linguagem, literatura oral e de cordel, das festas religiosas e de algumas danças e folguedos.

Mas os negros de origem africana e os índios que aqui viviam também participaram com os seus hábitos, costumes e crenças para a formação da nossa cultura. Os primeiros, definindo religiosidade e crenças tais como: irmandade do Rosário dos Pretos (os Negros do Rosário), cujos grupos mais conhecidos são os de Caicó e Jardim do Seridó; os índios, influenciando na alimentação – a farinha de mandioca e a paçoca, por exemplo, são heranças deixadas pelos indígenas.

As manifestações culturais que conseguem ainda sobreviver nos dias atuais – quando o interesse pela televisão reduz as possibilidades de as pessoas manterem suas tradições, hábitos e costumes herdados dos antepassados – precisam ser valorizados; os grupos que as reproduzem, por sua vez, incentivados, para manter vivas a nossa memória e a nossa história.

Por isso é importante que manifestações da cultura popular, como a literatura de cordel, as danças e folguedos, as feiras livres, as festas religiosas, o artesanato, o teatro e os museus onde é guardada parte dessa cultura, sejam conhecidos, visitados, para que, através da participação, possamos manter vivas as nossas raízes e a história daqueles que nos antecederam.

Os folguedos populares, também chamados por Câmara Cascudo de danças de alas ou cordões e de “autos populares’’, coincidem com as “danças folclóricas’’ de Deífilo Gurgel e Veríssimo de Melo, todos eles grandes estudiosos da nossa história e cultura.
Os principais folguedos ou danças do nosso folclore
São:

1.1 - Coco-de-Roda ou Bambelô – uma cantiga de trabalho dos negros que se ocupavam em quebrar coco. Também uma dança de roda em que o dançarino que fica no meio do círculo é substituído por outra pessoa da roda, é o sinal dessa substituição é dado por uma “embigada’’.

1.2 – Boi-Calemba – o mesmo que Bumba-Meu-Boi ou Boi-Bumbá, é uma dança ligada ao ciclo do gado e relata a morte e a ressurreição de um boi. É um bailado com cerca de dezesseis pessoas entre bailarinos que se dividem em dois grupos – “os Enfeitados e os Mascarados’’ -, e uma bandinha de música composta geralmente de pandeiro, violão ou rabeca e sanfona.
1.3 – Fandango – dança que conta a estória de uma embarcação portuguesa – “A Nau Catarineta’’ que se perde no oceano com a sua tripulação de cerca de 40 marujos, que cantam suas aflições e tristezas e a alegria quando avistam “terras de Espanha e areias de Portugal’’. O grupo musical é composto por violões, cavaquinhos, rabecas e pandeiros.

1.4 – Pastoris – dança de origem portuguesa que faz parte das festas do ciclo natalino. É formado por duas alas ou cordões – O cordão Azul e o Cordão Encarnado. Em cada cordão a primeira bailarina ou pastora é considerada a mestra que canta louvações e saúda o público com um espírito de rivalidade entre os dois cordões, mediados ou acalmados pela Diana, bailarina que exibe no seu vestuário as cores das duas alas – o Encarnado e o Azul.

1.5 – Chegança – auto popular que conta, através da música e da dança, a estória de um combate entre os tripulantes de duas naus (navios), uma Moura e outra Cristão. Na luta que continua em terra, uma princesa é presa e o combate só termina quando os mouros (povos de religião muçulmana) concordam em se transformar em cristãos através do batismo.
1.6 – Espontão – também chamada dança dos negros do Rosário. Geralmente é dançada na desta do Santo Padroeiro. Como é o caso da Festa de Nossa Senhora do Rosário em Caicó e Nossa Senhora da Conceição em Jardim do Seridó. A dança é um bailado que simula uma luta de lanças ou espontões entre dois grupos guerreiros com ataque e defesa que são acompanhados por um grupo musical formado por três tambores ou zabumbas e um pífano.

Outras danças e folguedos populares que ainda são manifestados no Rio Grande do Norte são: a Dança de São Gonçalo, em Portalegre; a Dança das Bandeirinhas, em Touros; Congos ou Congadas, em São Gonçalo do Amarante e Natal; Lapinha, dança de motivação religiosa, inspirada no nascimento de Jesus, conhecidos são de os Vila Flor e o de Maxaranguape; Cabocolinhos ou caboclinhos é uma dança indígena em que se reverencia o deus indígena Tupã. Seu principal grupo é o de Ceará Mirim; Maneiro-Pau ou simulando uma luta em que cada guerreiro enfrenta o outro com bastões ou cacetes de madeira. Essa dança é feita por grupos da região serrana do nosso Estado.
2.1 – Eventos Religiosos com datas determinadas:
JANEIRO: 
01 – Festa do Bom Jesus dos Navegantes, padroeiro de Touros.
06 – Festa dos Reis Magos, no Bairro de Santos Reis, em Natal, cuja comemoração constitui a maior devoção popular da Cidade.
13 – Festa da Sagrada Família, em Tenente Ananias (Sítio Ipueira).
17 – Festa de Santo Antão Abade, padroeiro de São Bento do Norte;
20 – Festa de São Sebastião dos “Cachoeira’’, no município de Caraúbas, padroeiro também, de Caiçara do Rio do Vento, de Encanto, de Gov. Dix-Sept Rosado, de Japi, João Dias, Monte das Gameleiras, Passa e Fica, São Bento do Trairi.
23 – Festa de São Raimundo, padroeiro de Ielmo Marinho;
30 – Festa de Nossa Senhora dos Navegantes na Praia da Redinha, em Natal.
FEVEREIRO:
02 – Festa de Nossa Senhora da Piedade, padroeira do município de Espírito Santo; festa de Nossa Senhora da Saúde, em Boa Saúde.
05 – Festa de Nossa Senhora dos Desterros, em Vila Flor.
11 – Festa de Nossa Senhora de Lourdes, padroeira de Senador Elói de Souza e também de Ipanguaçu. Festa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Ipueira.
MARÇO:
19 – Festa em homenagem a São José, em Angicos, São José do Campestre, Coronel João Pessoa, Rodolfo Fernandes, cuja data é um marco do sertanejo para saber se vai haver inverno.
ABRIL:
20 – Festa de Nossa Senhora dos Prazeres, no município de Goianinha.
MAIO:
13 – Nossa Senhora de Fátima, no município de Água Nova.
22 – Festa e, homenagem a Santa Rita de Cássia, padroeira de Santa Cruz.
JUNHO:
De 12 a 24 – Festa de São João Batista, padroeiro dos municípios de Açu, Pendências, Arês, São João do Sabugi, Cerro Corá, Jardim de Angicos e Antônio Martins. Dentro das festividades juninas ocorre sempre uma grande vaquejada.
13 – Festa de Santo Antônio, em Marcelino Vieira.
24 – Festa do Sagrado Coração de Jesus, em Grossos.
26 – Festa de Santana e São Joaquim, no município de São José do Mipibu e também no município de Campo Grande (ex-Augusto Severo).
29 – Festa de São Pedro e São Paulo no município de Pedro Avelino e São Paulo do Potengi.
As festas juninas ocorrem em todos os municípios do Estado, constituindo-se numa tradição as fogueiras de Santo Antônio, São João e São Pedro, com apresentação de quadrilhas e queima de fogos, bem como da crendice popular de adivinhações.
Há quase dez anos vem ocorrendo um movimento de resgate cultural em todo o Nordeste, através da realização de concursos de quadrilhas juninas – tradicionais, estilizadas -, em nível Estadual e Regional – os primeiros colocados no Estado concorrem ao 1º lugar na Região. Este ano de 1998, a primeira classificada no Rio Grande do Norte foi a Quadrilha do Erizão, de   Acari, que se apresentou conjuntamente com várias outras Quadrilhas no Shopping Via Direta, em Natal.
JULHO:
Neste mês comemoram-se as festas em homenagem a Nossa Senhora de Sant’ana, padroeira de vários municípios do Rio Grande do Norte, sendo que as festas mais conhecidas são as de Caicó, Currais Novos e Santana do Matos. Em todas elas ocorrem grandes vaquejadas.
AGOSTO:
02 – Festa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Barcelona.
15 – Festa de Nossa Senhora da Guia, padroeira de Acari.
Festa de Nossa de Senhora dos Navegantes, padroeira de Areia Branca, culminando com uma grande de procissão marítima.
Festa de Nossa Senhora das Graças, no município de Afonso Bezerra;
SETEMBRO:
08 – Festa de Nossa Senhora do Ó, em Serra Negra do Norte.
15 – Festa de Nossa Senhora das Dores em Itaú.
29 – Festa de São Miguel, em Jucurutu e de São Miguel Arcanjo, em São Miguel.
Último domingo deste mês – Festa de São Miguel de, em Extremoz.
OUTUBRO:
01 – Festa de Santa Terezinha do Menino Jesus no município de Tangará.
04 – Festa de São Francisco de Assis, em Pedro Velho.
13 – Festa de Nossa Senhora de Fátima, em Parnamirim.
16 – Festa em homenagem ao Padre João Maria, uma das maiores devoções populares do nosso Estado.
25 – Festa de Nossa Senhora das Vitórias, padroeira de Carnaúba dos Dantas.
Festa de Nossa Senhora do Amparo, padroeira do município de Coronel Ezequiel.
No último domingo do mês de outubro comemora-se a festa de Nossa Senhora do Rosário, em Caicó.
NOVEMBRO:
De 12 a 21 – Festa de Nossa Senhora da Apresentação, padroeira de Natal.
21 – Festa de Nossa dos Impossíveis, padroeira do município de Patu, cuja capela está localizada na Serra do Lima.
29 – Festa de Nossa Senhora do Livramento, padroeira do município de Taipu.
DEZEMBRO:
08 – Festa em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, padroeira de vários municípios do Rio Grande do Norte. As festas mais tradicionais são de: Canguaretama, Ceará Mirim, Jardim do Seridó, Lajes, Macaíba, Nova Cruz, Santo Antônio, São Rafael, São Tomé e Serra Caiada.
13 – Festa em homenagem a Santa Luzia, padroeira do município de Mossoró.
18 – Festa em homenagem a Nossa Senhora do Ó, padroeira do município de Nísia Floresta.
De 27 a 06 de janeiro – Festa de Nossa Senhora da Conceição em Martins.
31 – Festa dos Negros do terço Rosário, em Jardim do Seridó.

Outros eventos culturais já se tornaram tradição no nosso Estado. É o caso do dia 30 de setembro, em Mossoró, data em que a cidade comemora a libertação dos seus escravos e do CARNATAL, festa popular que reproduz um “Carnaval Fora de época’’, realizado no mês de dezembro, em Natal.

Fonte: Altas Escolar do Rio Grande do Norte - José Lacerda Alves Felipe / Edilson Alves de Carvalho.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

De como se votava antigamente

Por Marcos Pinto*


Durante o primeiro período republicano brasileiro, que alguns historiadores denominam de 1ª República(1889-1930), o processo de votação utilizado nos pleitos eleitorais para a escolha dos representantes aos legislativos estaduais e federal configuravam um cenário exótico exatamente no dia da eleição. Os chefes políticos postavam-se nos lados da mesa eleitoral (á época era urna)m instalada sempre dentro das igrejas matrizes. Adredemente formada por componentes vinculados à situação, com objetivos não recomendáveis, para forjação das atas eleitorais, não raro eram contestadas, por recurso, os seus resultados. 

Cada chefe político recebia a quantidade de cédula em número igual ao de cidadãos aptos ao exercício do voto. O voto era sufragado em aberto, ou seja, o eleitor, ao adentrar o local onde localizava-se a mesa eleitoral, dirigia-se ao chefe político ao qual era liderado, na maioria das vezes pela camaradagem, pelo compadrio e pelo “favor” devido, por plantar nas terras dos majores e coronéis da Guarda Nacional. Destes, recebia a cédula para, a seguir, dirigir-se à mesa, por seu presidente, apresentando documento/título. Era-lhe entregue uma sobrecarta vazia, onde o leitor depositava a cédula eleitoral, e incontinenti colocava-a dentro da urna. Feito isto, retornava à mesa eleitoral, onde fazia a aposição da assinatura na folha que era destinada aos votantes. 

Conta-nos o saudoso historiador Raimundo Nonato, em uma de suas celebres obras, que agora me flagro em olvido, que em uma cidade do Oeste Potiguar era tanto o pode de mando do chefe político, que os seus eleitores que não sabiam assinar eram substituídos pelos alunos do primário, isto no dia seguintes ao da eleição. Sabe-se que as professoras eram nomeadas por indicação política, o que as fazia submissa à esse tipo de expediente. 

Certa feira, o escrivão eleitoral que também devia o cargo ao chefe político, conduziu a folha de votantes até a escola para que os alunos fizessem a aposição das assinaturas dos votantes que não sabiam assinar e que eram eleitores certos do chefe situacionista. Apurados os votos, o Sr. Juiz eleitoral determinou ao oficial de justiça (o escrivão encontrava-se em diligências) que o mesmo lesse em voz alta os nomes constantes na folha de votação. 

Lá pras tantas o escrivão leu: Quinhentos Réis de bosta. O juiz e os presentes olharam estupefactos para o oficial de justiça, como a interroga-lo pelo tamanho disparate. De sorte que, neste interiam, chega de inopino o sr. escrivão eleitoral que ainda ouviu a aberração e, antes que o juiz o interroga-se sobre o inusitado, pega da lista de votantes e lê, em voz alta: Quintino Reis da Costa, sanando assim o vexame. Ocorrera que o aluno que assinara a lista ainda engatinhava na leitura, o que o fez entender o nome do eleitor de forma errônea. 

Esse método de votação era conhecido como voto à bico-pena ou eleição à bico-de-pena. Naquela época, roubar no resultado de eleições era parte integrante da vida política brasileira. Nestes moldes de votação havia dois pesos e duas medidas. O eleitor escolhia de forma espontânea e concreta os candidatos de sua predileção, evidenciando honestidade à toda prova, por outro lado amarrava o voto do eleitor que votava por compra ou por divida de favor. 

A imposição do voto secreto fez surgir no seio do eleitorado um processo de venalidade e de desonestidade moral própria, sem precedentes, e crescentes à cada eleição. O eleitor usa essa nuance do voto secreto para “assumir compromissos” com vários candidatos, em troca de benesses de cunho material (materiais de construção, enxovais para casamento, para criança,etc.) como também recepção de gêneros alimentícios – as famosas cestas básicas. Tinha razão Bertold Brecht quando disse: “O pior analfabeto é o analfabeto político”. 

A metodologia da eleição à bico-de-pena era aplicada devido a compatibilidade prática com o pequeno número de eleitores existentes à época, o que proporcionava ao chefe político o conhecimento memoriado, de cor e salteado, de todos os nomes de seus eleitores. Daí fixaram-se nas mentes bocós como pomposo e admirado populista, conferindo-lhe falsa identidade com os humildes do bolso e da mente. Eram meros instrumentos do domínio político. Resta a certeza de os políticos, em sua maioria, pensam e agem como se a massa eleitoral não passasse de resto do resto do resto. É duro, mas é verdade. 

Por força da Constituição Federal realizaram-se as eleições em todo o país, no dia 19 de janeiro de 1947, com a aplicação de novo método de votação, que consistia em que o eleitor já trazia de casa a cédula de votação já sufragada, restando apenas a obrigação de se dirigir à mesa eleitoral para dela receber a sobrecarta vazia, colocar a cédula dentro, e a seguir depositar na urna. As cédulas eram distribuídas de forma aleatória, valendo a capacidade de conquista e de persuasão para o sucesso de vitória. Nesta eleição o cidadão votou para governador, 3ª senadoria e suplência, suplente de senador eleito em 1945 e deputados estaduais. 

Este último método de votação foi utilizado até 1957. Ao eleitor menos esclarecido resta a convocação para uma cruzada de combate aos políticos caras-de-pau, submetendo-os a uma derrapagem no óleo de peroba da consciência sob a poeira da obscuridade. 

Em termos de apagão, amalgama-se a razão eleitoral para, como um furacão, incendiar os corações numa ira sagrada, tendo como estuário o magnânimo rio da conscientização política, espraiando surpreendente exaltação moral de um povo usado, espoliado e maltratado. 

*Marcos Pinto é historiador e advogado potiguar

Francisco Veríssimo - Portal Fatos do RN

Hino do Estado do Rio Grande do Norte



Hino oficializado pela lei estadual n. 2.161, de 3 de dezembro de 1957


Letra: Dr. José Augusto Meira Dantas
Melodia: José Domingos Brandão

Rio Grande do Norte esplendente
Indomado guerreiro e gentil,
Nem tua alma domina o insolente,
Nem o alarde o teu peito viril!

Na vanguarda, na fúria da guerra
Já domaste o astuto holandês
E nos pampas distantes quem erra,
Ninguém ousa afrontar-te outra vez

Da tua alma nasceu Miguelinho, 
Nós, como ele, nascemos também,
Do civismo no rude caminho
Sua glória nos leva e sustém!

ESTRIBILHO

A tua alma transborda de glória!
No teu peito transborda o valor!
Nos arcanos revoltos da história
Potiguares é o povo senhor!

Foi de ti que o caminho encantado
Da Amazônia Caldeira encontrou,
Foi contigo o mistério escalado,
Foi ti que o Brasil acordou!

Da conquista formaste a vanguarda,
Tua glória flutua em Belém
Teu esforço o mistério inda guarda
Mas não pode negá-lo a ninguém!

É por ti que teus filhos descantam,
Nem te esquecem, distante, jamais!
Nem os bravos seus feitos suplantam
Nem teus filhos respeitam rivais!

Terra filha de sol deslumbrante, 
És o peito da Pátria e de um mundo
A teus pés derramar trepidante,
Vem atlante o seu canto profundo!

Linda aurora que incende o teu seio,
Se recama florida e sem par, 
Lembra uma harpa, é um salmo, um gorjeio,
Uma orquestra de luz sobre o mar!

Tuas noites profundas, tão belas 
Enchem a alma de funda emoção,
Quanto sonho na luz das estrelas,
Quanto adejo no teu coração.

domingo, 21 de outubro de 2018

A família Rêgo - subsídios históricos

Por Marcos Pinto*

Brasão da Família Rêgo

A ocupação e exploração das terras interioranas, principalmente daquelas situadas nas áreas semiáridas, só foram objetivadas quando o solo mais áspero e inútil do Brasil se revelou de excelente qualidade para a criação de gado. 

Dentre os novos colonizadores que venceram a aridez do clima,  a ousadia do nativo e a vastidão da caatinga, destacam-se vários personagens desta culta e indômita família Rêgo, velhos povoadores dos sertões nordestinos com as genealogias familiares Barros, Rêgo, Rêgo Barros, Morais Rêgo, Rêgo da Fonseca, todos oriundos do mesmo tronco familiar do português D. Egas Mendes de Gundar, casado com dona Maria Viegas, que também assinava-se como D. Maior Pais Pinto. 

Vê-se pelo tronco inicial genealógico é o mesmo da família Pinto, também disseminadora do sangue europeu nos sertões nordestinos. O maior expoente cultural português, Luiz Vaz de Camões, enaltece a figura de D. Egas, em sua celebre obra, “Os Lusiadas”, evocando a sua bravura ao combater ao lado do rei português, tendo ambos perecido na batalha travada. 

A tradição oral conta que para o RN, zona oeste, vieram de Pernambuco no começo do século XVIII três irmãos: Simão do Rêgo Leite, Antônio do Rêgo Leite e Luiz do Rêgo Leite. O primeiro se estabeleceu na região que hoje pertence ao município de Luis Gomes, o segundo em Apodi, ou Portalegre, e o terceiro em Malhada de Areia, município de Pau dos Ferros. 

Estabelecido em Pau dos Ferros, Luiz do Rêgo Leite casou-se com Ana Ferreira do Rêgo, tendo tido dado origem a seguinte e brava prole: Maria do Rêgo Leite, que casou com José Pereira, apelidado “Cazuzinha da Gangorra”; Luiz do Rêgo Leite (o segundo do nome), que casou com Benta do Rêgo Leite (daí a origem das muitas Bentas na família Rêgo), em primeira núpcias, e em segundas com a senhora Raimunda Martins de Lacerda, tendo fixado residência em Malhada de Areia. 

Outro filho de Luiz do Rêgo Leite(primeiro) recebeu o nome de Manoel do Rêgo Leite, que casou-se com Ana Tereza de Souza Rêgo, filha de Francisco Antônio de Souza e Tereza de Souza, residiam na fazenda Taboleiro dos Bois. Daí os Souza Rêgo. 

Adveio mais outro herdeiro na pessoa de Florêncio do Rêgo Leite, nascido a 1857 e falecido no dia 02.01.1926, aos 69 anos de idade, residia no Sítio Boa Vista – Apody –RN. Era casado com Rita do Rêgo Leite, deixando os seguintes filhos: Benedito, Francisco, Raimunda, Francisca do Rêgo Leite. De Florêncio é origem dos muitos Rêgo que proliferam nas várzeas do Apody. 

Dos patriarcas desta família, e de Simão do Rêgo Leite que advém os muitos Rêgos que povoam o município de Portalegre, conforme inventário deste – do ano de 1824 (ano de sua morte) que tramitou pelo Cartório de Apody, sendo certo que o inventariante foi o seu filho José do Rêgo Leite, que tinha por irmãos Antônio do Rêgo Leite (morador  em Portalegre), Isabel Maria da Conceição, casada com Francisco Pedro de Carvalho; Josefa do Rêgo Leite, que depois de casada com Antônio da Mota Ferreira passou a assinar-se Josefa Ferreira da Mota, sendo esta Josefa e Antonio os pais de Vicência Ferreira da Mota, que por sua vez casou-se com o português Antônio Joaquim Rodrigues, pai do vigário Antônio Joaquim Rodrigues (de Mossoró). 

O filho(de Simão) Antônio do Rêgo Leite era o pai de Vicente do Rêgo Leite, pai de Alvacir de Albuquerque Rêgo, João de Albuquerque Rêgo, dentre outros. Seu Alvacir reside em Mossoró, já septuagenário de larguíssima inteligência. 
Há que se ressaltar que o outro filho de Simão, por nome José do Rêgo Leite – residia no Sítio Santa Cruz – Apodi-RN. 

Simão faleceu no dia 09/10/1824. Destes homens já referidos ocorreram os entrelaçamentos endogâmicos (entre famílias), tendo causado nascimentos com defeitos físicos, descendentes mentecaptos, com tendência ao suicídio, porém, destacando-se em sua maioria pela vastíssima capacidade intelectual predominante em suas intensas manifestações de espírito e verve. 

São as anotações de genealogista de província. 

*Marcos Pinto é  historiador e advogado

Francisco Veríssimo - Portal Fatos do RN

Patriarcas do Oeste Potiguar

Por Marcos Pinto*


Mesorregião Oeste Potiguar, destacando-se os municípios de Apodi, Portalegre e Martins. 

Os registros dos cartórios e as publicações históricas mostram que o povoamento português no Oeste Potiguar tem sua origem nas históricas cidades de Martins(1742), Portalegre(1740) e Apody (1703). O intercâmbio dos vários núcleos sociais entre estas comunas proporcionaram as penetrações no interior dos nossos sertões. os primeiros povoadores disseminavam seus currais onde encontrassem água para dessendentar homens e animais, fosse um rio, em geral não perene, um riacho uma lagoa ou simples “olho-d’água”. 

Enfrentando a indiada hostil, as caatingas inóspitas e a escassez de água, passaram a ocupar terras devolutas, as sobras de terras entre as “Datas”, quando então requeriam às autoridades competentes a concessão da “Carta de Sesmaria”, sujeita à confirmação do Rei, sob a alegação de já se encontrarem na posse mansa e pacífica da área pretendida e nela haverem realizado gastos. Área que a Carta Régia de 07.12.1697, reformada pela Provisão de 19.05.1729, limitou a três léguas de comprido por uma de largura, ou três de largura por uma de comprimento, ou finalmente uma em quadro.  

Justificando suas pretensões, os vetustos e rijos povoadores alegavam serviços ao Rei de Portugal, com riscos de vida e gastos de sua fazenda. Riscos no combate ao índio bravio e sua “pacificação” (muitas vezes mortandade deliberada – caso da carnificina de Viçosa, onde fuzilaram muitos índio ao pé da serra, quando estes ajoelhavam-se para rezar o ofício de Nossa Senhora), ou sua “domesticação” (na verdade capitulação, posto que a indiada se rendia à força bélica do homem branco). 

A reminiscente cidade do Martins recebeu essa denominação por ter sido fundada pelo português Francisco Martins Roriz, que em 1742 fixou-se na “Serra da Conceição”, depois designada Serra do Martins, tendo este patriarca falecido em 1786.  Uma filha desse fundador, D. Maria Gomes D’Oliveira Martins, casou-se com o português Mathias Fernandes Ribeiro. Desses patriarcas descendem as famílias Fernandes Ribeiro, Viriato Fernandes, Cipriano (da cidade de Tenente Ananias), Martins Ribeiro, Almeida(de Luiz Gomes-RN), Xavier (do Ceará), Silvestre, Bessa, Lopes Cardoso, Martins Sampaio, Lopes Fernandes, etc. Desse tronco tivemos em Mossoró o prefeito Rodolfo Fernandes de Oliveira Martins e o industrial Pedro Fernandes Ribeiro (genitor do advogado Paulo Fernandes). 

Ainda em Martins tivemos os patriarcas portugueses José Pinto de Queiroz, casado com D. Anna Martins de Lacerda, tronco dos Lopes e Chaves, Fernandes de Queiroz (com ramificação em Pau dos Ferros), Castro, Queiroz e Sá. Outro português que se radicou em Martins foi o Capitão Manoel dos Santos Rosa, natural da cidade do Porto, que chegando a Martins casou-se com Dona Maria José de Lacerda (filha de José Pinto de Queiroz), de quem descendem as famílias Santos, Santos Rosa, Santos Pinto (entrelaçamento com a família Pinto do Apody), Fernandes Chaves, Fernandes Sampaio, etc. 

A gênese do povoamento português naqueles rincões serranos (Martins) enumera ainda a presença do Capitão-Mor José Martins de Oliveira (falecido em 1781) casado que foi com D. Catharina Gomes D’Amorim, irmã do fundador de Portalegre, Sr. Clemente Gomes D’Amorim, tronco das famílias Silveira, Freire da Silveira, Freire de Oliveira, Gondim, Gomes D’Amorim, Gomes Pinto, Barrêto, que tem como tronco referencial Domingos Velhos Barreto, casado com D. Joana Gomes, filha do Capitão Manoel Inácio D’Oliveira, que por sua vez era filha de José Martins e Catharina. 

Em 1749 os irmãos (portugueses) Clemente Gomes D’Amorim e Carlos Vidal Borromeu, naturais de Coimbra, receberam concessão de Sesmaria na “Data Dormentes”. Foram os primeiros fundadores de Portalegre –RN. Clemente casou-se com Inácio Carneiro de Freitas e D. Joana Filgueira de Jesus. Aí o tronco dos Gomes de Amorim, Amorim Martins, Souza Martins, Azevedo Amorim, (vide Expedito Azevedo Amorim), Freitas. 

Carlos Vidal Borromeu casou-se com a índia alagoana D. Isabel de Araújo. É o tronco da família Mota de toda zona oeste. 
Acompanhando a marcha do povoamento da região, deparamos com Apody, onde em 1703 verificou-se a primeira questão de terra, promovida por Antônio da Rocha Pita (sesmeiro baiano) contra os Nogueiras, tendo sido decidida em 03.03.1706, em favor dos Nogueiras, e havendo uma apelação para as cortes de Lisboa, que terminou por confirmar a sentença em favor dos Nogueiras. 

Os patriarcas apodyenses são os portugueses Antônio da Mota Ribeiro, da cidade de Braga, nascido a 13.06.1710, falecido em Apody a 19.08.1796, tendo casado com D. Josepha Ferreira de Araújo, filha de Carlos Vidal Borromeu e Isabel Araújo. O capitão João Barbosa Correia, natural da cidade de Ponta de Lima (Portugal) casou-se com D. Rosa Maria de Jesus (Pernambucana). O capitão Barbosa Correia faleceu a 16.11.1787, aos 98 anos de idade. Tronco das famílias Barbosa de Amorim, Nunes, Souza, Soares, Soares de Souza, Barbosa de Lucena, Noronha, Pinto, etc. 

Há que se ressaltar que os principais fatores que proporcionaram a ocupação destes territórios oestanos foram: a existência de pastagens naturais, o clima sadio, favorável à criação extensiva dos rebanhos em campos abertos (não havia cercas), terras agricultáveis, sobretudo na chã das serras. Transmitidas de geração a geração, mantêm-se assim, ainda hoje, em posse destas antigas famílias. 

FONTE DE PESQUISA: Marcos A. Filgueira “in” “Velhos Inventários do Oeste Potiguar”. João Bosco Fernandes – “Memorial de Família”. 

*Marcos Pinto é advogado e historiador

Francisco Verissimo - Portal Fatos do RN