quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A porteira da saudade

"Garimpar o insondável chão do tempo é fazer ranger a porteira da saudade" (Marcos Pinto).

Diviso ao longe, lá no imenso latifúndio da recordação, um lance de cerca feita com varas trançadas, parecendo representar as paralelas dos meus desafios cotidianos. Interrompendo o devaneio perscrutador, vejo que há um hiato entre o estirão da cerca, se perdendo na imensidão dos sonhos. Nesse espaço lacunoso, a interruptiva presença da velha e surrada porteira da saudade. Deteriorada pelas intempéries, é uma testemunha muda que guarda toda uma uma história de pessoas que por ela passaram em suas afanosas fainas diárias. Há muito transfiguraram-se em sombras que sofrem, vagando pela dimensão espiritual, numa solene procissão dos mortos. Percebo, amargurado, que a esquina do tempo já espreita o cadinho da idade mais que cinquentenária, revelando assédios de esquecimento em lances fortuitos.

Do mais humilde sítio à mais suntuosa fazenda, há sempre uma porteira demarcando presença em nosso território sentimental. No sítio da humildade franciscana, vislumbro a rústica porteirinha feita com paus tortos, mal acabados, oriundos da mata nativa, geralmente da árvore denominada de "Pau Branco", ou até mesmo de pés de jurema, amarrados uns aos outros por uma espécie de corda sertaneja de nome imbira. Na portentosa fazenda, uma porteira diferente, bem trabalhada, parafusada, larga, às vezes até pintada. Assim é a nossa vida. Uns vivendo como se fossem a porteirinha humilde, rangendo precisão em cadenciada sonoridade de tristeza. Como num lance de mágica, aguça-me a sintonia do ranger da porteirinha sincronizada com o cantar tristonho do sertanejo, montado em seu magro jumentinho. À exemplo do seu dono, dá-se até para contar as salientes costelas, se revelando ameaçadoras de romperem o surrado couro. Outros vivendo à tripa forra, deleitando-se em faustosa opulência. Existências similares às porteiras da vida - viventes de um drama cheio de lances e imprevistos. o tempo voraz e célere consome a firmeza e integridade da porteirinha e da imponente porteira da rica fazenda. Morrem-lhes os donos, e os sucessores já não dispensam-lhes a mesma manutenção. 

Não há como negarmos que as porteiras das terras dos nossos pais e avós até hoje exercem um grande fascínio sobre nosso contexto existencial, dando um colorido especial às nossas contagiantes recordações. Nessas alongadas vigílias da insônia, elas surgem cheias de mistérios, como um milagre tão esperado. Na retentiva da noite, eis que a porteira da saudade revela-se abrindo sozinha, rangendo estranha sonoridade em forma de prece. Descortinam-se entranhas de abismos insondáveis. Aqui e acolá um suspiro imperativo e silencioso tremulando no peito, como se estivesse travando uma guerra silenciosa com a inexpugnável certeza de que a morte impõe-se como o caminho mais certo, a importunar os horizontes de nossas atitudes. De sorte que a certeza fora lapidada por inesgotável fé na ressurreição da carne e na vida eterna. A porteira da saudade resume tudo isso: o fim de um começo que nunca deixará de ter uma finalidade. O ter e o ser, o materialismo doentio e o espiritualismo cheio de transcendentalidade. Faço minha a emblemática frase do meu culto primo Antonio Noronha Pinto (Tom): "SE A SOLIDÃO USASSE UM VESTIDO, CERTAMENTE LEMBRARIA UM SUDÁRIO".

Por Marcos Pinto - historiador e advogado apodiense.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Onde a história desbanca a ficção

"Exceto o louco, todo homem é capaz de razão e de vontades, mas muitos não escutam mais que suas paixões e não tem mais que caprichos". (Han Ryner).


As solidões vastas e desoladoras das antigas vilas, vilarejos e pequeninas cidades interioranas constituíam ambiente propício para a prática da gratidão em plenitude espiritual. Nesse cenário,o tempo passava em conta-gotas, quase parando. a minúscula urbe era constituída por homens rústicos, de nenhum grau de estudo, e como tal incapazes de discernimento e percepção de situações vexatórias que muitas vezes envolviam suas caras consortes. Geralmente eram de famílias modestas mas que, vez por outra, uma donzela de família tradicional incorporava a figura da famosa lenda da "burrinha-de-padre".

Em um contexto temporal de arraigado conservadorismo e apego aos dogmas cristãos, a figura do sacerdote predominava como protagonista-mór e autoridade máxima da comuna, exercendo a arte da palavra de forma magistral e convincente, o que dava um colorido e ênfase especiais aos seus sermões. A grande ascendência exercida sobre o seu rebanho beirava os umbrais da idolatria. Imagine-se os desejos carnais amordaçados que esses virtuosos clérigos deixaram guardados no silêncio obsequioso das largas e antigas paredes dos seminários oitocentistas. Entendo que a Igreja Católica Apostólica Romana tem no implacável dogma celibatário um dos seus erros crassos e clássicos, com veementes ranços medievais.

Encolhidos dentro de suas almas, os clérigos divisavam a realidade de que fazia-se necessário a união entre o verbo e a ação. De forma sutil, o desejo incitava-os à ação. A percepção do tempo incitando o conflito entre os desejos. E foi aí e assim que surgiu a famosa lenda da "burrinha-de-padre". O imaginário popular encarregou-se de configurá-la e materializá-la como sendo uma "Mula-sem-cabeça". Essa teoria sobressaía-se como sendo um castigo divino infligido à donzela que se entregara às libidinosas conxumbrãncias do inteligente e culto sacerdote. Até hoje ouve-se essa fantasiosa lenda nas conversas dos alpendres sertanejos. quando a noite vestia de crepe a pequena urbe, lá pelas altas horas ouvia-se o tropel desenfreado da tal "burrinha-de-padre". Dizia-se à boca pequena que o religioso, de forma astuta, protegido pela intensa escuridão, chicoteava o seu cavalo para que, sem montaria, saísse em disparada, passando para os assombrados e ingênuos habitantes a impressão de que tratava-se da tão comentada "burrinha-de-padre", o que os mantinha recolhidos em suas redes e alcovas. A donzela entrava em cena, totalmente coberta/ protegida por escuro manto, geralmente de cor marrom. No encontro sigiloso, ocorria a voluptuosa transição da ociosidade diurna para a sofreguidão do mais ardoroso fogo da paixão. E assim o antigo seminarista protagonizava a crucificação específica do seu voto clerical, espraiando vetustos desejos no voluptuoso corpo de sua sigilosa amada. No outro dia, lá estava o padre a entoar cântigos sacros e "orações decoradas para afugentar medos e labaredas" de um futuro fogo do inferno.

No período Oitocentista havia como que uma certa indiferença hierárquica da Igreja Católica quanto á essa quebra do voto clerical. Os padres que optavam pelos relacionamentos amorosos com geração de prole assumiam a paternidade, reconhecendo e perfilando os filhos através de escritura pública lavrada e registrada no competente cartório. Outros preferiam reconhecê-los através de testamentos cerrados, nomeando-lhes bens, que somente eram abertos após seus falecimentos. Um ex-governador e um ex-senador do RN eram bisneto de padre, fato já público e notório, inclusive publicado em livros. Refiro-me ao Dr. Tarcísio Maia e ao Zezito Martins (José de Souza Martins), ambos descendentes do famoso padre Antonio de Souza Martins, que foi o segundo padre da paróquia de Martins-RN, no período 1842-1845.

As tradicionais famílias PAIVA, do belíssimo recanto serrano Portalegre-RN e a família MOURA de Patu-RN descendem do primeiro padre da paróquia de Apodi- o padre JOÃO DA CUNHA PAIVA, natural de Pernambuco, que trouxe um filho de igual nome, que Luzia de Souza e foi residir em Portalegre. A família MOURA descende de uma filha do padre JOÃO DA CUNHA PAIVA (Padre João de Paiva) de nome RITA MARIA DE JESUS, que o padre fez casar com o viúvo Capitão-Mór GERALDO SARAIVA DE MOURA, cujo casal teve uma prole de 11 filhos, daí a existência dessa tradicional família disseminada em todo o estado. O Capitão-Mór Geraldo Moura foi o testamenteiro do sogro. (FONTE: "Vide livro "VELHOS INVENTÁRIOS DO OESTE POTIGUAR" - Marcos Antonio Filgueira - Coleção Mossoroense - Série C - Vol 740 - Ano 1992.

O outro padre da paróquia de Apodi que deixou vasta descendência foi o também pernambucano Padre MANOEL CORREIA CALHEIROS PESSOA, que trouxe um filho de igual nome e que veio a casar com ANA CATARINA DE MORAIS, filha do Capitão Antonio de Morais Bezerra e Maria José da Assunção, e são tronco inicial da tradicional família CALHEIROS DE MORAIS e MORAIS CASTRO, disseminados nas várzeas de Apodi e Governador Dix-Sept Rosado. (FONTE: obra acima citada).

Por Marcos Pinto - historiador e advogado 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Geologia e recursos minerais


A geologia é o estudo da terra e dos elementos que entram na sua composição como as rochas e terrenos.
As pedras são rochas; as areias que formam as dunas e as nossas planícies costeiras são terrenos. O estudo da geologia é importante para se conhecer a origem dos solos e os recursos minerais existentes nas rochas e terrenos de um determinado lugar.

O Estado é composto por dois tipos de geologia, que praticamente dividem o nosso território estadual ao meio: toda a parte do Centro-Oeste e grande parte do Sul (cerca de 60%) do nosso território são formadas por rochas cristalinas e terrenos antigos, com origem no período geológico chamado de Pré-Cambriano.

Esse tipo de rocha se formou quando a terra deixou de ser uma bola de fogo e a crosta começou a se solidificar. essas rochas e terrenos, que constituem mais da metade da geologia do Pré-Cambriano do nosso Estado, são terrenos antigos, formados por rochas resistentes, tais como os granitos, os quartzitos, os gnaisses e os micaxistos, onde são encontrados minerais como: scheelita, berilo, cassiterita, tantalita, ferro, micas, ouro, cobre, columbita, enxofre, barita, coríndon e alguns tipos de gemas, tais como: a água marinha, turmalina e quartzo. 

A outra estrutura geológica que ocupa as partes Centro-Norte e todo o litoral do Estado é formada por rochas e terrenos sedimentares, de formação mais recente, datam de eras geológicas chamadas de Mesozoíca e Cenozóica.

Nessa geologia de rochas e terrenos sedimentares, representada pelas Dunas, terrenos do Grupo Barreiras, calcário, jandaíra e Arenito Açu, vamos encontrar minérios importantes para a economia do nosso Estado . É o caso do petróleo, da água dos lençóis subterrâneos, do calcário (matéria-prima para a fabricação do cimento), da argila para a fabricação de telhas e tijolos, da diatomita que é usada na indústria de papel, da porcelana, do plástico e da cerâmica branca.

Fonte: Atlas Escolar do Rio Grande do Norte  - José Lacerda Alves Felipe / Edilson Alves de Carvalho.